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    Adolfo Brás Sunderhus Filho é professor de História, Filosofia e Sociologia, que tem um mania de ficar observando tudo a sua volta e quando acha que algo é interessante (ou nem tanto) acaba por escrever por aqui sobre isso...
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Na cafeteria…

O tempo passando por entre os ponteiros do relógio, e tudo que ele sabia fazer ela ficar ali, parado, olhando para a janela, vendo o movimento de cortinas e lençóis nos apartamentos dos vizinhos. Olhava, vez em quando, para seu lado e via ali o que havia adquirido, com tanto esforço e dedicação, para fazer algo que, não sabia como, mas estava destinado a fazer. Tudo que ele tinha certeza é de que tinha de fazer, entregar, ou apenas deixar aquilo em algum lugar, e por algum motivo que não sabia como explicar, mas só sabia, ele tinha a certeza absoluta de que aquele objeto, chegaria nas mãos de alguma pessoa que estava precisando.

Levantou-se então do seu banco, já um tanto enferrujado devido ao mau tempo e andou até algumas crianças que estavam brincando. Estavam alegres, sorridentes, gritando enquanto as bolas subiam e desciam, amarradas aos seus pulsos. Pegou uma tesoura, daquelas de cortar tecido, e cortou cada corda que prendia os balões, fazendo com que eles subissem indefinidamente. As crianças, que antes gritavam de excitação, silenciaram-se, olharam para cima, tentando ver o rosto daquele que acabara com sua brincadeira, mas o rosto estava desfigurado, e assustadas, elas saíram correndo em direção aos seus pais, que alguns, até se levantavam para entender o que estava acontecendo, mas ele já não estava mais tão perto, e só ouvia os xingamentos ao longe, bem baixos, mas conseguia entender cada um deles.

Pegou, então, o objeto em suas mãos. Tinha cuidado para carregá-lo. Era frágil, poderia se despedaçar. E todo cuidado era pouco, havia, estava ali nas mãos dele o resultado de toda a economia de um ano. “Um ano…”, pensou sozinho enquanto olhava para aquela caixa, embrulhada meio que de qualquer jeito. Há um ano ele levantou-se com a certeza de que tinha de juntar uma quantidade imensa de dinheiro e que deveria, com esse dinheiro, comprar algo, que não seria para ele, e nem seria para alguém que ele conhecesse. Sabia apenas que deveria juntar esse dinheiro e esperar o dia certo, e ele saberia quando esse dia chegasse, para usar esse dinheiro. E foi juntando, acumulando esse dinheiro. Era sozinho, então era fácil conseguir. Tinha um bom emprego e sem notar, sem pensar efetivamente, foi cortando os gastos, diminuindo suas idas a bares e restaurantes caros, tudo para juntar o tal dinheiro.

Desfigurado, irreconhecível, pelo menos aos olhos daqueles que não sabiam quem ele era. Mas, era uma dor imensa, não física, pois fisicamente ele não sentia nada, absolutamente nada. Podiam tocar em sua face, beliscar-lhe as bochechas, cortar-lhe os lábios, e nenhuma dor ele sentia disso tudo. Um dia ele, em meio a loucura que tal falta de sentidos lhe trazia, pegou uma chave de fenda e, com ela, começou a apertar o rosto, tentando desesperadamente sentir alguma coisa. Esquentou-a no fogo e voltou mais uma vez ao rosto, apertando-a intensamente, até que perfurou-lhe a face. O sangue escorria, e ele sabia disso não por sentir-lhe escorrer, mas porque via no seu reflexo.

Chegava a um local, com aquela caixa em suas mãos. Era uma cafeteria, que ele já havia passado algumas vezes enquanto ia para seu escritório. Já havia até tomado algum café dali, que algum garota da firma comprou para ele. Mas, não lembrava ao certo. Sabia apenas que ali deveria entrar, com caixa e tudo. Entrou, sentou-se a mesa, e uma garçonete logo veio para atendê-lo. Pediu um café forte, e nada mais. E ficou ali, com a caixa na cadeira ao lado dele, olhando para as paredes da cafeteria. Não tentava entender tudo que havia acontecido nesse ano em sua vida. Não. Apenas cumpria, fazia aquilo que ele tinha certeza que deveria ter feito. Ninguém sabia a respeito disso tudo, apenas ele. E, queria acreditar, também a outra pessoa, a qual ele não tinha a mínima ideia de quem seria. E perdido em meio aos seus pensamentos, o cheiro inebriante do café invadiu-lhe as narinas.

Vestiu-se, colocou seu chapéu, afinal precisava se proteger, além de proteger as pessoas de verem tal rosto horrendo, e saiu. Não havia nada mais em sua casa, nada que pudesse identificar como um ambiente confortável e que, inclusive, moravam alguém ali. Já havia despachado tudo, enviado para casa de seus pais, que estava distantes e com os quais não mantinha contato maior do que uma ligação por semana. Ligação curta, rápida, para falar que estava tudo bem, que a recuperação estava ótima, que logo voltaria ao trabalho e retomaria sua vida. Mentiras necessárias para a manutenção da distância saudável dos cuidados excessivos de sua mãe superprotetora e dos julgamentos intensos de seu pai com complexo de deus.

Levantava-se para pagar a conta, quando chegou alguém e o cumprimentou. Viu assustado, aquele rosto estranho, como que queimado, e com um furo em um dos lados. Não conseguiu esconder. Mas ele não se sentiu chateado. “Não tem problemas, todos agem assim”. E o homem, desfigurado, olhou para a caixa nas mãos daquele sujeito e pegou-a. E o sujeito não fez qualquer menção de impedir que isso acontecesse, pois sabia que estava ali, diante dele, a pessoa para qual ele deveria entregar aquele objeto. E, ali mesmo, abriu a caixa, e viu dentro dela, algo que não esperava. Olhou novamente para o homem: “Não foi isso que pensei…”, e o homem tomou de dentro da caixa o objeto: “Mas foi isso que lhe dei…” e quatro estampidos secos foram ouvidos.

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