• Sobre mim mesmo…

    Adolfo Brás Sunderhus Filho é professor de História, Filosofia e Sociologia, que tem um mania de ficar observando tudo a sua volta e quando acha que algo é interessante (ou nem tanto) acaba por escrever por aqui sobre isso...
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“Vamos acordar para uma nova realidade, uma mudança que ocorrerá em nossas vidas dentre em breve.”

Escrito em letras simples, como se fosse a mão, essa frase estava em um grande letreiro, no centro da cidade, em um fundo branco, com letras pretas. Junto com outras propagandas que passavam no mesmo letreiro animado, ela passava despercebida para muitos que ali andavam, no meio de tanta correria, na vida insana do centro urbano.

Roberto vivia uma realidade bem diferente daquilo. Até então, morador de uma área rural, ele vivia um ritmo menos corrido, preocupando-se com plantio de mexirica que mandava para a cooperativa . A cooperativa era o mais perto que ele tinha chegado até agora do centro urbano, quando uma vez teve de visitar seu centro administrativo, ali naquela mesma cidade em que ele estava agora. Mas, da vez daquela visita ele não tinha ido sozinho, por conta própria. Foi numa “van” confortável da empresa que representava a cooperativa, junto com outros produtores de diferentes gêneros agrícolas, como laranja e limão. Passaram, naquela vez, direto pelo grande centro, em direção à administradora, na qual passaram todo o dia. Tiveram um almoço delicioso, com fartura de comida, que em nada agradou a Pedro, tão acostumado com o simples feijão, arroz e ovo que sua esposa fazia. Mas, Roberto, ficou maravilhado. Frutos-do-mar, carnes variadas, queijos… Nem ligou para o que seu cunhado achou da comida.

Mas, agora, prestando atenção em tudo, naquela correria enloquecida, olhava para os carros, dos mais diferentes tipos e cores, em um arco-íris vibrante que enchia o asfalto e permeava os prédios, arranha-céus, pensava no letreiro. Palavras um tanto incômodas para ele. Sua vida já passava por mudanças intensas. Decidir sair da área rural, do conforto que ele tinha em sua casa, do sossego, para buscar novos rumos em uma “cidade grande”. O fim do seu casamento, 20 anos de relacionamento que simplesmente se desfizeram por motivos que até agora ele tentava entender. Já eram mudanças demais para ter de lidar com outras mudanças que em breve viriam.

O ônibus parou em sua frente, atendendo ao sinal de alguém do meio da multidão que já aglomerava em frente a estreita porta do coletivo. Levado pela correnteza, quando se deu conta, estava dentro do ônibus, em frente ao cobrador, que lhe pedia o dinheiro da passagem. Foi aquele alvoroço, passageiros irritados, enquanto ele buscava dentro de seus bolsos as moedas que tinha para pagar a passagem. Passou pela roleta e já parara. Não tinha como continuar, tamanha era a multidão de pessoas que ali se encontravam. Olhou para trás, como que buscando um caminho de volta e nada via a não ser cabeças e faces cansadas, estressadas, tristes. Sentimentos comuns ao dele naquele instante. Observou a mudança de pessoas dentro do ônibus, com o entra e sai intenso de passageiros, até que a quantidade de pessoas começou a diminuir, diminuir, diminuir, restando apenas ele. Desceu no ponto final e olhou para os laados. Outra vez, e outra e outra.

Viu uma drogaria com a porta aberta pela metade, luzes fracas. Entrou, pediu um remédio. O atendente falou de pronto que só poderia vender aquele remédio com receita médica. Ele entregou a receita com uma onça desenhada e saiu de lá com uma sacola nas mãos. Olhou para frente e viu um bar. Atravessou a rua. Uma moto tirou um fino dele, mas parecia não se importar. Fazia tudo automaticamente. Sentou na cadeira e olhou para a mesa. Vermelha, velha já, meio comida pela ferrugem. O símbolo da cervejaria desgastado, que quase não era possível identificar. Um senhor com um bigode encardido chegou até ele e saiu. Pouco depois voltou com uma porção de fígado e um cerveja gelada. Encheu o copo, de modo a fazer bastante “colarinho” e garfou uns quatro pedaços de carne. Colocou na boca, mastigou um pouco e tomou um gole generoso. Mais uma garfada, e outro gole. E outra garfada e outra garrafa. Mais um gole, outro, outro, outra garrafa. Uma porção, garfadas, goles e garrafas. Quando já mal conseguia segurar o copo, abriu a sacola, tomou mais um gole e caiu desacordado.

Pensar no caminho…

Tem-se caminhado em que direção?

Não se sabe ao certo qual caminho escolher, apenas é notório que alguns caminhos são fáceis, outros difíceis, outros medianos. Agora, como escolher? Isso depende de cada um. É o livre-arbítrio, direito inalienável do homem desde quando o mesmo adquiriu consciência de que ele é um ser pensante e passou a tomar decisões próprias para sua vida.

Tomei a minha. Ando em busca do incerto, com consequências das mais diversas. As vezes me dou bem, outras nem tanto, mas apenas busco e sei (ou quero acreditar) que atingirei o resultado que espero para mim. Que resultado é esse? Não deve perguntar a mim, mas às pessoas que estão envolvidas com a minha vida, que estão no meu caminhar nesse mundo, que foram influenciadas por mim. O que sei é que cheguei em um lugar, um posto.

Sou responsável pela vida de centenas de milhares de pessoas, envolvidas nessa brincadeira, assim como eu prefiro chamar. Alguns não sabem ao certo porque estão envolvidas nisso, e outras nem noção tem de que fazem parte de algo que ainda está para se construir e provar o porque da sua necessidade e existência.

Estou apenas olhando e anotando. O caderno, cheio de observações. Comportamentos, falas, ações, atitudes, pensamentos. O ambiente é grande, e a observação é constante. Não estou sozinho no meio disso tudo, não observo solitariamente. Seria impossível, desumano, e prezo pela humanidade, mesmo…

Mas, o questionamento primeiro se faz e deve ser repetido. A dúvida que paira no ar, e que não pode deixar de ser constante em minha vida e na de todos os envolvidos. O rumo parece ser perdido, como num labirinto imenso, cheio de entradas e saídas, e o caminho muitas vezes parece sumir de nossas vidas, e nos perdemos. E, então, devemos encontrar, mais uma vez, o caminho…

Sentir…

Sentado na cadeira, escutando ruídos que parecem próximos, as vezes distantes. Ruídos, diversos, tantos que tem até dificuldade de identificar quais são, o que são. Passos, gotas, metais, plástico, e tudo o mais que havia e que não discernia. Apenas escutava.

Levantava-se. Teto era baixo demais, era o que lhe dizia o topo da cabeça. Uma textura estranha também existia ali, mas não sabia ao certo, mais, se tal textura era do próprio teto, ou se ele havia ocasionado aquilo. Mas, estava ali.

As paredes eram próximas também, suas mãos, já raladas de tanto encontrar com elas demonstravam que o local no qual ele se encontrava não era muito maior do que o espaço de seus braços pouco abertos.

E, então, voltava-se a sentar. Tudo que ele sabia a respeito do ambiente no qual ele estava era isso. Os sons, o tamanho, a textura. Não tinha cheiro, isso ele tinha certeza, assim como também não apresentava gosto, também tinha certeza.

Tentou então entender o que era tal lugar, onde ele estava e como havia chegado ali, se é que ele havia saído de algum lugar e ido para outro, também era algo que lhe vinha a mente nesse instante.

Seria possível estar no mesmo lugar de antes, tendo apenas ele sido alterado, não havia dúvidas quanto a isso. E a hipótese não lhe parecia remota, muito pelo contrário, lhe parecia, inclusive bem plausível, dado que não se lembrava de ter saído.

Havia sido apagado? Um anestésico fortíssimo que o pusera para dormir, desmaiado, e então levado para outro lugar? Passou lentamente as mãos pelo seu próprio corpo, não encontrando qualquer marca, mesmo que mínima de furo.

Poderia ter sido por líquido? Comida? Não… Não havia comido, ainda era cedo, pelo menos pelo que ele se lembrava, poucas horas tinham passado desde quando ele acordou. Mas, poderia confiar em seu senso de tempo?

Tempo… Levou a mão ao pulso, buscava seu relógio, precisava sentir os ponteiros, saber as horas, quanto tempo havia passado. Ele não estava ali.

Cores…

Uma visão de si mesmo em um ambiente iluminado, de luz tão intensa que fere os olhos, azul do céu, causando uma sensação de frieza, distância e desconforto.

Apenas está ali. Não pode-se dizer que não sabia o que o levava aquele local, ao contrário de outro, tempos atrás. Estava ali atendendo a uma chamado, uma convocação. Outros chegariam, e até já estavam próximos, pois o silêncio interno era tanto que ele conseguia ouvir passos ao longe e vozes. Ainda eram muito baixar, não lhe permitindo discernir o que era dito. Pareciam apenas sussurros. Os passos eram mais intensos, o solado no chão de madeira, e mulheres estavam lá, os tamancos. Como ele detestava aquele som, lembrava-lhe a vizinha do andar de cima, duas horas da manhã, de um lado para outro, enquanto o marido, embriagado, quebrava mais alguma coisa. Copos, pratos, jarras, a televisão de 42 polegadas Full HD (nesse dia ela não ficou em silêncio, mas gritou justamente esse detalhe). Ele riu.

As paredes começaram a ficar brancas, a luz mudando. Da frieza do azul, agora tudo começava a se tornar mais claro, e depois aqueceu-se. Amarelo. E cinco pessoas entraram. Nuas, pintadas de cores quentes. Sem seus cabelos. Olhavam para ele, mas não diretamente, apenas uma. A mulher. Ela tinha uma marca no rosto. Parecia um corte, feito sem cuidado, talvez acidental, talvez proposital. Estava pintada de roxo. “Engraçado”, pensou ele. A cor lhe era familiar, não lembrava ao certo de onde. Mas, não teve tempo para isso. Quando viu, já…

“Amarrado? Como?”

“Umidade?”

“Verde…?”

Inquietação

E o incômodo lhe domina, enche o seu ser, gerando uma sensação estranha. Impaciência, intolerância, irritabilidade, carência. Tudo simplesmente parece lento demais para ele ou, então, acelerado em excesso. Nem ele sabe. Apenas sente que algo encontra-se fora do eixo, fora de prumo. Como se houvesse um desnível em relação a tudo que separa ele de outras pessoas.

“Peixe fora d’água”, seria essa a expressão popular que mais se aplicaria em algumas situações. Mas, em outras, fica-se até difícil definir facilmente como ele se sente. Mas, apenas sente e sabe, alguma coisa não está certa em meio a isso tudo que ele vê ocorrendo com as pessoas que estão a sua volta, com aqueles os quais ele conhece e isso lhe inquieta.

Primeiro, um estampido num café. Depois, uma cápsula que surge. E ainda, um caminho no meio de um nada. Para ele nada disso poderia parecer normal, muito pelo contrário. E tudo que podia fazer era tentar encontrar conexões para tudo isso que ocorria. E, o pior de tudo, que mais lhe deixava incomodado: ainda havia mais a ocorrer.

Caminhos…

Era tudo o que ela via.

Estava ali há alguns meses, ainda reconhecendo o lugar no qual havia chegado e tentando entender tudo que ocorrera com ela. Lembrava-se vagamente a última vez que tinha verificado seus instrumentos. Os dados eram exatos, deveria ter chegado em um local povoado e com condições de sobrevivência.

“Areia para tudo que é lado é bem distante de sobrevivência”.

 Já sabia algumas características. Muito calor durante o dia, muito frio a noite. Tempestades de areia quase toda semana, pelo menos duas vezes. E eram terríveis. Lembrava-se da primeira vez, quando fora pega de surpresa. Sua roupa chegou a se rasgar e o vidro de seu capacete ficou trincado. Foi assim que descobriu que poderia respirar naquela ambiente que lhe parecia inóspito.

Não parecia haver chuva, pelo menos não naquele lugar. Mas, pelo que observara, ao longe, tinha visto se formar nuvens típicas da chuva. E ainda teve um dia em que teve certeza, o ar estava úmido (mas pensou ser alucinação).

Mas, naquele dia, olhava sem entender direito. Havia uma pequena mudança na paisagem, a areia não estava perfeita, um pequeno caminho, como que feito por um animal, existia naquele deserto.

“Civilização, sociedade, pessoas?”. Não pode ter certeza, estava apagada.