• Sobre mim mesmo…

    Adolfo Brás Sunderhus Filho é professor de História, Filosofia e Sociologia, que tem um mania de ficar observando tudo a sua volta e quando acha que algo é interessante (ou nem tanto) acaba por escrever por aqui sobre isso...
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A serventia que nós temos

Qual a serventia que podemos ter dentro de um contexto como o atual?

Muitas vezes os indivíduos comportam-se como se fossem ferramentas de uma realidade a qual todos são usados e depois descartados. Vivemos esse intenso processo de descarte dentro do meio social.

Amizades são passageiras, namoros são relâmpagos, casamentos são breves. Engraçado perceber como que o processo de “atualização automática” tão comum nessa era da superinformação, chegou às relações sociais e muitos nem perceberam tal fato. Agora, a grande questão diz respeito justamente ao impacto que tal comportamento pode vir a gerar dentro do meio social, nas estruturas do mesmo, que ou deixam de existir, ou então passam por uma renovação. Pois, é curioso lembrar, que tais relações servem de base para a manutenção da sociedade e justamente para que ocorra o equilíbrio necessário para a sobrevivência da mesma.

Vivemos um “equilíbrio de contrários”, como bem nos disse Heráclito, na Antiguidade Clássica. As constantes alterações que passam a sociedade são justamente tudo aquilo que faz com que ela seja o que é. É a sua essência. A realidade tal qual a percebemos, muitas vezes nos parece ser como na música de Chico Buarque. Os sentidos nos levam a crer que as coisas não se alteram. Quando vemos a realidade limitada por nossos sentidos, deixando de lado o estritamente racional, temos a falsa impressão de tudo permanece o mesmo. Essa sensação é mais que bem vinda, necessária para que não caiamos em um caos, um desequilíbrio. A rotina que tanto dá sentido ao nosso dia-a-dia é um dos meios para que possamos manter a estabilidade social, assim como a esperança de mudança e de melhora também é um fator determinante para que essa estabilidade continue a existir.

Mas, o ímpeto da mudança, tão característico do homem pós-moderno, pluralizado em si mesmo, vem prevalecendo frente a instituições, a relação que davam sentido à existência e que eram peças fundamentais no processo de estabilização do convívio social e então suspendemos, por isso, as permanências. Buscamos o diferente a todo custo, sem se preocupar com o que há de vir. O amigo tem uma opinião diferente e então o substituímos por outro que pensa como nós. O companheiro faz algo que não concordamos, então agimos do modo mais fácil (ou não) e partimos para buscar um substituto. É uma necessidade do agora, do momentâneo, que assusta e torna volúvel tudo que temos em nossos contextos sociais.

E, justamente, então, padrões são quebrados, e permanências deixam de existir e a não apenas o indivíduo, o homem pós-moderno se pluraliza, mas a sociedade também, como ser mutável que é, influenciável por aqueles que a compõem se torna pluralizada ao extremo, num excesso de ser e não ser, num devir tão intenso que os contrários já não se equilibram mais.

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Velocidades do tempo

A vida parece ser muito mais lenta quando estamos descansando há algum tempo distantes de toda a correria que é o grande centro urbano.

Há uma semana eu tive o prazer de, mais uma vez, pegar o carro e fugir do centro urbano caótico que tem se tornado a Grande Vitória a cada dia que passa. Peguei o caminho do litoral norte e fui em direção à Vila Pavão. Próxima a Barra de São Francisco, depois de Colatina, é simplesmente um lugar paradisíaco, no que diz respeito a paz e tranquilidade. Um trânsito quase inexistente, o cheiro de terra molhada por causa da chuva, o som de pássaros e galos a cantar logo cedo e um céu com uma quantidade de estrelas que é impossível de se ver em qualquer “cidade grande”. Como é bom estar no interior.

Até meus 16 anos eu morei a vida inteira no interior do estado do Espírito Santo, e pude comprovar como a vida é muito melhor em locais mais simples, com menor quantidade de habitantes e sem o relógio a ditar todos os seus passos, suas decisões. Pois, venhamos e convenhamos, que invenção mais maldita o tal do relógio. Os relógios sempre existiram, desde o século XVI a.C., no Egito Antigo. Mas, foi por culpa de Santos Dumont e Louis Cartier que os relógios se tornaram extremamente populares e começaram a adornar nossos pulsos, mas bem antes disso o tempo já dominava nossas vidas plenamente, principalmente a partir do século XIX e toda a loucura industrialista e por aí vai…

Mas, em Vila Pavão, a minha última preocupação foi com o tempo. Para ser mais sincero ainda, eu nem tirei o meu celular de dentro do carro (a não ser no sábado a noite, véspera de voltar para casa, que aí cedi a tentação de verificar emails, facebook, twitter e outras pragas tecnológicas que depois que começamos a usar não conseguimos viver sem). Mas, até o sábado a noite, nada de olhar para horas. Quando alguém me perguntava as horas por lá, simplesmente respondia que não fazia ideia alguma, e que não era para se preocupar com o tempo. Lá, na roça, o que importava de verdade era ficar de conversa, comer um delicioso churrasco, um “cafezin” doce, pão com manteiga e por aí vai…

Inevitável, voltar à realidade se faz necessário, pois não tem como viver de forma bucólica para sempre. E no domingo voltamos para a realidade, o grande centro urbano, com seus carros, seus semáforos, o trânsito enfurecido e tudo aquilo que só uma metrópole pode nos trazer. Mas, Vila Pavão permanece lá, e eu me preparo para assim que for possível voltar e viver em ritmo desacelarado, mesmo que seja por poucos dias, mas são dias que aproveito ao máximo e me desprendo do tempo que tanto rege minha vida.

Engolidos

Enquanto alguns simplesmente desaparecem, em meio a tanto que se coloca em nosso dia-a-dia, cotidiano corrido de velocidades inconstantes, outros se sobressaem e surgem como estrelas em meio a um turbilhão de emoções que se forma no espaço veloz que tanto é característico de nossas cidades. Uma pena, contudo, que essas estrelas sejam tão passageiras, venham cadentes e logo se deixam levar pelo ritmo inebriante e inquebrável que se estabelece em nossas cidades desde quando elas começaram a se formar, ainda mais depois do advento do relógio, que tudo conta e mede.

Invenção interessante essa, o relógio. Coloca em nossos pulsos, nossos bolsos e telefones a sensação de que temos o controle do tempo, quando mesmo é muito superior a nós mesmos. Não temos controle sobre ele, muito pelo contrário. Desde a Revolução Industrial e a exacerbação do tempo simplesmente não temos mais controle algum sobre o tempo e aquilo que necessitamos dele. Simplesmente vivemos de acordo com os ponteiros de um relógio (ou os dígitos) e vamos achando, acreditando que temos a liberdade e o direito de escolher e fazer o que bem entendemos. É ainda, quando acreditamos ter essa liberdade, esse controle sobre nós mesmos, que as estrelas se mostram, brilham em meio a uma grande parcela de pessoas que simplesmente aceitam e se deixam levar. Mas, não demora, para sermos consumidos pela rotina da urbanidade pós-industrialização, em uma pós-modernidade que nos engoliu de modo tal que não temos mais como controlar nada que está a nossa volta. Simplesmente somos e continuamos sendo, apagando-nos de modo a ficarmos invisíveis ao lado de outros.

O constante ir

Comigo vão, vasos de porcelana, da mais fina e pura. De um valor inestimável, não por serem caros, mas pelo que representam. Tem toda uma história, tem todo um contexto. E vão!

Dentro de caixas estão objetos, que muitos de nós não valorizamos, mas que já montam a nossa história, de uma forma tão importante que se os perdermos simplesmente vão com eles nossa identidade, nosso ser, nossa existência. E vão!

Insignificantes, restos de borrachas são um demonstrador de um passado apagado, de um texto esquecido, que não será nunca mais lido, mas que num dado momento fez todo o sentido. Mas, suas palavras se foram, como as folhas de uma árvore de outono, que balançadas pelo vento, vão!

E com o passar dos anos vemos as mudanças, as idas e vindas de uma vida incessante. Num ritmo frenético, tudo se passa e vai, como vão as pessoas, por ruas, calçadas. Caminhando, correndo, em carros e ônibus. E vão!

XIX

A sensação é estranha, para todos nós… Vivemos em uma realidade, num cotidiano que se acelera a cada segundo… A sensação que temos é a mesma descrito de Júlio Verne no século XIX, mas não mais a respeito do mundo, e sim a respeito do tempo. Verne disse em meados do século XIX que o mundo parecia estar diminuindo de tamanho… Hoje, atrevo-me a falar, numa paráfrase (seria esse o termo?), que os minutos parecem estar menores…

Pensei nisso ao sair com minha esposa a noite… Comemoramos ontem 7 meses de casados e nos demos de presente um jantar na Barra do Jucu… Fomos em um delicioso restaurante próximo a praça e depois de jantarmos passeamos um pouco… Meio que sonhando, imaginamos como seria bom morar ali naquele local… Uma calma tão grande, um silêncio, uma tranquilidade… Sonhamos, imaginamos… Depois, entramos no carro e 10 minutos já estávamos no centro de Vila Velha… Gritante a diferença de ritmo…

Por que esse acelerar tão grande? Por que estamos nesse ritmo ensandecido…? Qual o impacto disso em nosso pensamento, na nossa psique… Provavelmente diversos estudos a respeito disso já foram feitos e ainda o são, mas mesmo assim não me furto a deixar de questionar e pensar, comigo mesmo e também com meus amigos, a respeito do ritmo cada dia mais acelerado em que estamos vivendo… O já citado século XIX foi o propulsor disso tudo… Um pouco antes dele, no XVIII já houve esse processo de aceleração… Mas, a intensificação disso tudo se deu no XIX e suas máquinas rápidas, o trem a vapor, a comunicação de longa distância e a transformação da estática fotografia no cinema (para mim a demonstração máxima de como a velocidade ganhou importância para o homem, dado que o cinema nada mais é do que fotos tiradas em alta velocidade para que passadas uma após a outra em um ritmo específico elas deem a ilusão do movimento)…

É óbvio que o XIX teve uma importância tremenda em nosso cotidiano, afinal de contas, esse meio de comunicação que uso hoje para publicar meus textos só surgiu devido a tudo que ocorreu naquele século… Mas, e essa correria? O que pensar sobre ela, como agir sobre ela e dentro dela?

Que realidade é essa?

Que caminhos estamos percorrendo dentro dessa sociedade insana, que muitas vezes se passa de uma forma que nem conseguimos imaginar, simplesmente passando como se tudo fosse repentino, instantâneo, em uma efemeridade que beira a inexistência?

Valores há muito foram corrompidos, nos mais diferentes setores de nossa sociedade. A intolerância chegou em tal nível que vemos pessoas achando a coisa mais comum do mundo, e até justificando a mesma.

Dentro do pensamento do politicamente correto, não podemos mais emitir opinião de nada. Dar a sua opinião virou motivo para ser taxado de ditador, discordar dos outros então… Virou uma afronta mortal para alguns.

O que vale é a individualidade, cada vez mais. O que o outro pensa, a forma de agir dos outros, isso pouco importa. E, então, vamos nesse ritmo, e ficando abismados ao vermos pessoas incendiando mendigos. Nos assustamos com a crescente nos índices de violência. Ficamos boquiabertos com a falta de sensibilidade alheia.

A rotina da mudança

Reorganizar, pensar, elaborar, azeitar, encaixar…

A dinamicidade da vida de qualquer ser humano é algo simplesmente impressionante. Fico observando como as coisas se desenvolvem em nosso cotidiano e como as mudanças são constantes, por mais que pensemos que ela não ocorre.

É muito confortável para qualquer um pensar que as mudanças não acontecem. Crer na rotina nos proporciona um conforto imenso que nos é necessário para viver dentro dessa realidade de constantes acertos.

Ao longo dos anos, das centenas de milhares de anos que compreendem a existência humana, o indivíduo desenvolveu uma capacidade camaleônica incrível de se adaptar ao meio no qual ele está inserido, seja por necessidades geográficas, metereológicas, sociais, econômicas, culturais ou psicológicas.

No início de tudo éramos nômades e vivíamos da caça e da coleta. Com o tempo, passamos a observar o meio que estávamos vivendo, de tal forma que desenvolvemos a agropecuária, algo tão presente em nosso cotidiano até os dias de hoje, com uma importância ímpar em nossa sobrevivência. E essa “arte”, tão antiga, sofreu alterações ao longo dos muitos anos de sua existência. Antes rudimentar, com técnicas de plantio simples que levavam ao esgotamento rápido do solo, hoje ela está desenvolvida de tal forma que o solo permanece fértil por dezenas de anos. Antes altamente dependente da natureza para que o plantio fosse irrigado, agora temos sistemas de irrigação complexos, com intervalos automáticos pré-determinados de acordo com a necessidade de cada cultura explorada. Todas essas mudanças foram ocorrendo por um simples motivo: a necessidade de atender a crescente da população mundial.

Tal crescimento se deu devido justamente a essas mudanças ocorridas no fornecimento de alimentos, em conjunto com o processo de sedentarização ocorrido durante o período neolítico, que levou a uma fixação dos grupos humanos em territórios, facilitando a sua sobrevivência e proporcionando, dessa forma, condições para que fosse possível formarem-se as vilas e cidades, criando estruturas melhores elaboradas para defesa populacional e levando a necessidade da formação de estruturas mais complexas de organização social, como governantes determinados e códigos de leis escritos.

Por essa pequena explanação, com alguns equívocos e acertos, podemos observar que a dinamicidade, as mudanças, não são algo novo, muito pelo contrário. Justamente por isso é importante que, como homens inseridos dentro do cotidiano, saibamos lidar com as mudanças. Elas sempre existiram em nossa vivência, e por mais que vivamos uma rotina, as mudanças continuarão existindo, sendo importantes para a nossa vida, para tudo aquilo que temos hoje e teremos sempre.